Crônicas

Cai o pano

No início dos anos sessenta, cai o pano de boca sobre a aldeia encantada que nos servia de palco. A torrente de representações e imagens que nossa consciência, entregue ao doce engano do sonho, abrigava em seu teatro, dissipou-se na areia. Desarmava-se o cenário, desapareciam os figurantes.

A puxar os cordéis, o progresso travestido de especulação imobiliária.

O palco foi deslizando, animado por uma velocidade vertiginosa, e a voragem deformadora transformou o bairro ao jeito do charivari de mau gosto de Copacabana.

O crescimento urbano, é preciso admitir, é inevitável, mas no caso do Leblon, o preço pago pela subversão foi excessivo: custou-nos o precioso cantinho, prazeroso, amorável.

Dois fatores concorreram para sedimentar esse deplorável processo: a ocupação da Selva de Pedra, por forasteiros aspirantes à classe média e a apropriação dos bares, pela intelligentsia irrequieta, cansada de baldear por Copacabana e Ipanema, juntamente com o cortejo que lhe queimava incensos. Os componentes desses dois grupos - com raras exceções - tinham um cacoete comum a todos os descobridores, qual seja uma xenofobia às avessas, corrupta e insolente, que se manifesta pela injustificada e imediata rejeição da cultura local e se consolida mediante a imposição de novos ícones e ídolos. A diferenciá-los, o fato de que uns vieram para ficar; outros, para fazer piquenique.

Tomando como exemplo o colonizador histórico, o primeiro grupo, dos felizes proprietários das unidades imobiliárias da Selva de Pedra, erigida sobre os escombros ainda fumegantes de uma Praia do Pinto criminosamente incendiada, ostentava o perfil ibérico, ainda que afetasse a arrogância e o desdém do anglo-saxônico, sem sê-lo (ou sem selo), que jamais foi suficiente, porém, para disfarçar a sintaxe trôpega do discurso do jeca deslumbrado, ou do suburbano reprimido.

O outro predador, o elitizado (ou etilizado), veio com a retórica anglo-saxônica, mas com comportamento de ibérico, saqueando até esgotar o veio, indo embora deixando sobre a grama as sobras do piquenique... talvez caviar, mas pouco importa! O processo, neste caso, foi sofisticado: a súbita celebridade que seus fautores emprestaram ao local teve o mesmo efeito devastador do prospecto imobiliário da companhia predial.

O velho e doce Leblon foi conspurcado pelos hábitos nocivos dessa cultura híbrida, pizza mezzo a mezzo de fatuidade e hipocrisia, de arranjo e gosto duvidosos, e os nativos perderam-se no anonimato, ou sumiram sem deixar pistas. O fulgor das cabeças pensantes, a fosforescência arrebicada da protoperuagem e o fumacê catinguento provocaram um segundo incêndio, tão nefasto e deprimente quanto o outro, queimando os arquivos originais, e lá se foram as individualidades e as referências. Ficaram fantasmas, que só aparecem para quem tem o dom de reconhecê-los, como nos filmes de ficção, o que, de certo modo, atenua nos eleitos a angústia da ausência e da certeza da irreversibilidade.

Sei que é impossível reviver aqueles fantasmas, e parece quixotesco bater-me contra o inevitável crescimento do arrivismo, mas o preço que paguei embute o jus esperneandi e permite-me lamentar e reprovar a voragem desfiguradora. Por isso, ´montei` no modesto Johann Faber - o meu Rocinante - e vou mandando bala nos espigados moinhos de vento. Aceito adesões.

 

Estamos em 2005...

O Leblon tornou-se definitivamente cenário de uma patuscada promovida por arrivistas e festeiros, estimulada por associações dirigidas por oportunistas sem compromisso com as tradições do bairro e referendada pela maioria dos cronistas/colunistas de cadernos e suplementos dos periódicos mais ´vendidos`, jornalistas esses orfãos de idéias e reféns da bajulação, da trivialidade e do convidativo recurso de bisbilhotar a carta lacrada que os convencionais passam de mão em mão.

Como todos os invasores, a panelinha pratica uma xenofobia às avessas, rejeitando a cultura local e tentando impor seus próprios ícones e ídolos de pés de barro.

O processo - que pode vir mascarado de roteiro gastronômico, às vezes reduzido a libelos hipócritas por conta das contrariedades da igrejinha, freqüentemente timbrado pela idolatria feminóide ou outra atribulação entre as que habitualmente acodem a alma desvelada do fofoqueiro de plantão - tem o mesmo efeito devastador que outrora causou o prospecto imobiliário da companhia predial.

 

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