

O Cizoca chegou a mão em concha junto ao ouvido do Camundongo e fez uma longa preleção, interrompida, aqui e ali, por indagações e efusivos gestos de assentimento por parte do interlocutor que, em seguida, pôs-se a berrar:
- Encontra-se perdido o menor Elísio...
Camundongo foi uma dessas figuras extravagantes que toda cidade cultiva e reverencia, misto de sem-teto e caixeiro-viajante, que nos idos de cinqüenta perambulava pelas praças do Rio de Janeiro mascateando miuçalhas, em meio a pilhérias sobre a própria atividade e os assuntos do momento: a versão tupiniquim daqueles velhotes portando suíças até o meio das bochechas, encontradiços nos filmes de faroeste, apregoando as virtudes de algum bálsamo milagroso, encarapitados numa carroça mambembe atulhada de quinquilharias penduricadas por todos os cantos.
A geringonça do nosso herói, mais atrapalhada do que o abecedário chinês, consistia numa imensa caixa de madeira acoplada a um burro sem rabo, transportada pra cá e pra lá com surpreendente mobilidade, se considerado o porte franzino de seu condutor. Servia, a um só tempo, de almoxarifado e moradia a esse provecto nômade, tipo amulatado, com um carão crestado, crivado de bexigas, óculos grossos sem aro e uma voz estridente e desagradável, que anunciava suas bugigangas por meio de um arremedo de megafone que lhe potencializava o timbre argentino. Não obstante as minguadas possibilidades de tão precário equipamento sair da mudez a que parecia confinado, o som do instrumento, dados o silêncio e a serenidade reinantes nos arredores, assumia as proporções sublimes da trombeta que, no dia do juízo final, haverá de acordar os mortos para comparecerem diante de Deus.
Por insistência do Cizoca, o locutor repetiu o aviso...
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